Ao deixar o União Brasil, governador de Goiás buscou algo que não encontrou na antiga sigla: espaço real e estrutura para sustentar uma candidatura própria à Presidência
A saída de Ronaldo Caiado do União Brasil não surpreendeu o meio político. O que despertou questionamentos foi a escolha do PSD, partido comandado por Gilberto Kassab e que já abriga outros nomes ventilados para a disputa presidencial. Ainda assim, a decisão do governador de Goiás passa menos por improviso e mais por leitura fria de cenário.
Com quatro décadas de vida pública, Caiado conhece os bastidores da política nacional e entende os limites e as oportunidades de cada legenda. Ao migrar para o PSD, ele buscou preencher uma lacuna que, segundo ele próprio vinha afirmando há meses, jamais foi resolvida dentro do União Brasil: a garantia concreta de que o partido teria candidatura própria ao Palácio do Planalto.
Desde o lançamento de sua pré-candidatura, em Salvador — evento marcado, inclusive, pela ausência da cúpula nacional do União Brasil — Caiado repetiu um pedido básico: liberdade e condições para construir seu projeto presidencial. O que ocorreu, na prática, foi o oposto. Enquanto o governador avançava publicamente, a legenda dava sinais cada vez mais claros de que preferia apoiar um nome ligado ao bolsonarismo, especialmente o senador Flávio Bolsonaro.
O resultado foi um impasse prolongado. Para Caiado, tornou-se evidente que permanecer no União Brasil significaria investir energia em uma candidatura sem horizonte definido. A mudança de partido passou a ser, portanto, uma questão de viabilidade política.
O PSD entrou nesse cálculo por reunir dois fatores considerados essenciais pelo governador. O primeiro é o compromisso histórico da sigla com candidaturas próprias, mesmo em cenários complexos. O segundo é o peso político. Diferentemente de outras legendas que chegaram a ser cogitadas, como Podemos ou Solidariedade, o partido de Kassab tem musculatura nacional.
Nas últimas eleições, o PSD elegeu quase 900 prefeitos, mais de 40 deputados federais e formou a segunda maior bancada do Senado, com 14 parlamentares. Essa estrutura garante acesso a um dos maiores fundos partidários e a um tempo significativo de propaganda eleitoral, elementos decisivos em uma disputa presidencial.
Assim como ocorria no União Brasil, Caiado ainda não é oficialmente o candidato do PSD ao Planalto. A diferença, porém, está no ambiente. No novo partido, a possibilidade de disputar de fato a indicação existe, amparada por uma legenda que tem interesse em protagonismo nacional e condições reais de sustentar esse projeto.
Para o governador, a troca de sigla não foi apenas um movimento de ruptura, mas uma tentativa de alinhar discurso e prática em torno de sua pré-candidatura. O PSD, nesse contexto, surge menos como um destino definitivo e mais como o espaço onde, pela primeira vez, esse plano pode sair do papel.






