TRE-RJ barra candidatura de mulher apontada como ligada à cúpula do Comando Vermelho

Mariana de Souza, do PP, é casada com homem apontado como número dois da facção em Alagoas; decisão foi unânime e ainda cabe recurso ao TSE

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) decidiu, por unanimidade, nesta sexta-feira (11), impedir o registro da candidatura de Mariana de Souza (PP) para uma vaga na Câmara dos Deputados.

A decisão atende a uma ação de impugnação apresentada pelo Ministério Público Eleitoral (MPE), que aponta supostos vínculos da candidata com integrantes do alto escalão do Comando Vermelho (CV).

Mariana é casada com Wilson Marques de Albuquerque, conhecido como “Zé Dirceu”. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas, ele seria uma das principais lideranças do Comando Vermelho no estado e é considerado foragido.

Apesar da decisão do TRE-RJ, Mariana ainda pode recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Durante o julgamento, o presidente do tribunal, desembargador Cláudio de Mello Tavares, afirmou que a decisão representa uma reação da Justiça Eleitoral à atuação do crime organizado.

Supostos vínculos com a facção

O Ministério Público Eleitoral apresentou relatórios de inteligência que, segundo o órgão, indicariam uma relação próxima de Mariana com integrantes da cúpula do Comando Vermelho.

Um dos principais elementos apontados é o relacionamento da candidata com Wilson. Ele foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão por tráfico de drogas e a mais 12 anos e 7 meses por associação para o tráfico. Há mandados de prisão contra ele e, segundo as autoridades, ele permanece foragido.

O MPE também afirma que Mariana teria publicado imagens nas redes sociais nas quais o rosto de Wilson aparece ocultado, o que, na avaliação da Procuradoria, poderia dificultar sua identificação.

Outro ponto levantado no processo envolve doações para a campanha. Segundo o Ministério Público, parte dos recursos teria vindo de pessoas e empresas que apresentariam possíveis vínculos com integrantes da facção.

Empresa e suspeitas sobre movimentações financeiras

A Procuradoria também analisou uma empresa pertencente à candidata, a Império do Norte Ltda.

De acordo com o MPE, a companhia funciona em um endereço próximo ao de outra empresa que, segundo a ação, teria sido aberta por Wilson utilizando uma identidade falsa.

Para o órgão, as circunstâncias levantariam suspeitas de que as empresas poderiam ter sido utilizadas em operações de lavagem de dinheiro.

O processo cita ainda seis contas bancárias registradas em nome de Mariana. As movimentações financeiras analisadas pelo MPE apresentariam sinais de fracionamento de valores.

Concentração de votos em áreas dominadas pelo CV

A votação obtida por Mariana nas eleições municipais de 2024 também foi considerada pela Procuradoria.

Naquele ano, ela disputou uma vaga de vereadora do Rio de Janeiro pelo PDT. Segundo o MPE, 1.451 dos votos recebidos pela candidata, correspondentes a 81,3% do total, foram registrados em bairros da Zona Norte apontados como áreas de influência ou domínio do Comando Vermelho, entre eles o Complexo da Penha.

Para a Procuradoria, a concentração poderia ser indicativa de um possível “curral eleitoral” relacionado ao controle territorial exercido pela facção.

O MPE também apontou R$ 14 mil em doações realizadas por dez pessoas que moram ou já moraram nessas localidades. Conforme a ação, alguns dos doadores possuem registros criminais ou não apresentariam renda formal compatível com os valores destinados à campanha.

A própria Procuradoria, no entanto, ressalta que esses elementos, analisados isoladamente, não são suficientes para comprovar que os recursos tiveram origem ilícita.

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