Robôs ganham espaço nas passarelas e levantam debates sobre o futuro da moda

Presença crescente de máquinas em desfiles reacende discussões sobre tecnologia, padrões estéticos, diversidade e o espaço ocupado por profissionais da moda

A presença de robôs em desfiles de moda tem se tornado cada vez mais comum. A tecnologia, que já ocupa espaço em diferentes etapas da cadeia produtiva, também começa a aparecer nas passarelas, levantando questões sobre o papel das máquinas e os padrões adotados pela indústria.

A novidade chama atenção porque coloca robôs no mesmo espaço tradicionalmente destinado a modelos. A discussão envolve não apenas inovação, mas também a possibilidade de substituição de pessoas por máquinas programadas conforme determinadas características físicas e estéticas.

O avanço ocorre ao mesmo tempo em que a participação de influenciadores em desfiles passou a ser debatida no setor. A entrada de personalidades com grande número de seguidores nas passarelas gerou críticas de profissionais que veem a prática como concorrência ao trabalho de modelos.

Tecnologia e o avanço das big techs

Um dos exemplos recentes aconteceu no Vogue World, evento promovido pela revista Vogue e realizado em Milão. Durante o desfile, robôs dividiram a atenção com roupas e celebridades presentes na passarela.

A presença das máquinas provocou reações diferentes entre integrantes da indústria da moda. Enquanto nomes como Donatella Versace, Domenico Dolce e Stefano Gabbana reagiram positivamente, Alessandro Michele e Miuccia Prada demonstraram menos entusiasmo.

O episódio também ganhou destaque por ocorrer em um evento patrocinado pela Meta Glasses, tecnologia que tem sido alvo de debates relacionados à privacidade e à coleta de dados em espaços públicos.

Nesse contexto, a aproximação entre moda e grandes empresas de tecnologia amplia a discussão sobre como recursos tecnológicos estão sendo incorporados ao setor e sobre os limites dessa transformação.

Robôs já haviam aparecido em outras passarelas. Em 2023, por exemplo, a grife Coperni levou máquinas ao desfile, mostrando que a presença de equipamentos robóticos na moda não é totalmente recente.

Corpos que podem ser programados

A utilização de robôs também levanta questões relacionadas aos padrões de beleza historicamente associados à indústria da moda.

Ao longo das décadas, o setor foi criticado pela valorização de características físicas consideradas ideais, incluindo padrões de magreza extrema. Nesse cenário, um robô pode representar uma figura totalmente ajustável, sem alterações de peso, envelhecimento ou outras mudanças naturais do corpo humano.

A possibilidade de configurar características físicas abre espaço para questionamentos sobre até que ponto a tecnologia pode reforçar modelos estéticos já existentes.

A discussão ganha ainda mais relevância diante do uso crescente de ferramentas tecnológicas para criar imagens, personagens e representações digitais utilizadas em campanhas publicitárias e outros projetos ligados à moda.

Discussão sobre profissionais e máquinas

A presença de influenciadores nas passarelas também provocou reações dentro do mercado por envolver pessoas que, embora não sejam modelos profissionais, passaram a ocupar espaços tradicionalmente destinados à categoria.

Nesse caso, as críticas estão relacionadas à disputa por oportunidades de trabalho e ao investimento de anos de profissionais que atuam no setor.

A recepção aos robôs, entretanto, tem sido diferente. Até agora, as máquinas costumam ser apresentadas como atrações específicas, experiências visuais ou ferramentas de marketing, e não necessariamente como substitutas imediatas dos modelos.

Essa diferença de percepção levanta outra questão: por que a presença de uma máquina causa menos resistência do que a entrada de influenciadores em um espaço profissional?

À medida que a tecnologia se torna mais presente nas passarelas, a indústria da moda passa a discutir não apenas inovação e espetáculo, mas também os limites da automação, a representação dos corpos e o futuro das profissões ligadas ao setor.

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