Levantamento nacional mostra forte apoio à assistência às vítimas e à interrupção da gravidez em casos previstos pela legislação; maioria também rejeita obrigar crianças a manter a gestação
Uma pesquisa nacional inédita aponta que 64% dos brasileiros defendem que meninas com menos de 14 anos grávidas em decorrência de estupro possam optar pela interrupção legal e segura da gestação em hospitais públicos. Apenas 16% dos entrevistados se posicionaram contra.
O levantamento foi realizado pelo Ipsos-Ipec a pedido do Instituto Patrícia Galvão, em parceria com a campanha Criança Não é Mãe. Foram ouvidas 1.200 pessoas de todo o país em março de 2026, exclusivamente pela internet.
Os resultados indicam também amplo apoio à assistência às vítimas. Para 89% dos entrevistados, meninas que sofreram violência sexual devem receber atendimento psicológico imediatamente. Outros 72% defendem que elas tenham acesso a informações para prevenir infecções sexualmente transmissíveis e uma nova gravidez.
Maioria vê aborto como questão de saúde pública
A pesquisa aponta que o tema é associado principalmente à área da saúde. Metade dos participantes considera que o debate sobre aborto deve ser conduzido por órgãos ligados à saúde, enquanto 19% mencionaram instituições do Legislativo e do Judiciário.
Apenas 3% citaram instituições religiosas como responsáveis pelo debate.
O levantamento também mostrou que a população reconhece a falta de condições de meninas muito jovens para assumir a maternidade. Entre os entrevistados, 77% discordam que uma menina de até 14 anos tenha condições físicas, emocionais e psicológicas para ser mãe.
Além disso, 59% rejeitam a ideia de obrigar uma vítima de estupro a levar a gestação adiante para posteriormente entregar a criança à adoção. Outros 67% discordam que a menina deva ser punida caso interrompa a gravidez.
Cenários hipotéticos revelam diferenças de opinião
Os pesquisadores apresentaram aos participantes algumas situações específicas para avaliar suas reações.
Em um dos cenários, foi apresentada a hipótese de uma menina de 13 anos, integrante da família do entrevistado, engravidar após uma relação com um adulto. Nesse caso, 40% afirmaram que apoiariam o aborto legal. Entre jovens de 16 a 24 anos, o percentual chegou a 51%.
A diferença também apareceu entre grupos religiosos: 46% dos católicos apoiariam a interrupção, enquanto o índice entre evangélicos foi de 32%.
Em outra situação, os entrevistados avaliaram o caso fictício de uma criança de 11 anos estuprada que desejava interromper a gravidez, mas teve o caso encaminhado à Justiça por um Conselho Tutelar. Diante da hipótese de uma juíza tentar convencê-la a manter a gestação para depois entregar o bebê à adoção, 56% disseram discordar da postura da magistrada.
Um terceiro cenário envolveu uma gestação com diagnóstico de anencefalia fetal. Nesse caso, 56% concordaram com a aplicação da legislação que permite a interrupção da gravidez.
Meninas são maioria entre vítimas de estupro
Os dados da pesquisa também evidenciam o impacto da violência sexual sobre crianças e adolescentes.
Em 2024, o Brasil registrou 87.545 casos de estupro. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 60% das vítimas tinham menos de 14 anos. Considerando também adolescentes de 14 a 17 anos, 69,7% das vítimas eram menores de idade.
Apesar disso, somente 35% dos entrevistados conseguiram identificar corretamente as meninas de até 14 anos como o grupo mais atingido pelos estupros. A maioria apontou adolescentes de 14 a 17 anos ou mulheres adultas.
O levantamento também identificou desconhecimento sobre o número de meninas que engravidam no país. Segundo o Observatório Criança Não é Mãe, são cerca de 16.520 gestações de meninas por ano, em média. Porém, 39% dos participantes não souberam estimar a quantidade e, entre os que responderam, a maioria apontou números inferiores à realidade.
Pesquisa aponta falta de acesso ao aborto legal
Segundo dados apresentados pela campanha, menos de 5% das meninas que engravidam conseguem acessar o aborto legal anualmente.
Para representantes das organizações envolvidas no levantamento, a falta de informação sobre a dimensão do problema pode limitar ainda mais o debate público e o desenvolvimento de políticas de proteção.
A avaliação é de que ampliar o conhecimento da população sobre a quantidade de crianças vítimas de violência sexual e que engravidam pode aumentar o apoio a medidas de acolhimento, proteção e educação sexual, além de facilitar o acesso aos direitos já previstos na legislação brasileira.






