Semad alterou a classificação do manancial após melhora nos indicadores de vazão; Saneago afirma que os sistemas de captação e distribuição conseguem atender à demanda da capital
O Rio Meia Ponte passou para o nível de alerta hídrico no trecho monitorado antes do ponto de captação que abastece Goiânia. A mudança foi oficializada pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), por meio da Portaria nº 249, publicada no Diário Oficial do Estado em 14 de outubro.
Conforme os dados considerados na decisão, a vazão registrada em 9 de outubro foi de 6.570 litros por segundo. A reclassificação ocorreu depois que a média móvel de sete dias permaneceu acima de 5.500 litros por segundo pelo terceiro dia consecutivo, indicando uma melhora em relação ao nível crítico 1.
Apesar da mudança, o comportamento do manancial ainda exige acompanhamento. André Amorim, gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (CIMEHGO), informou ao Jornal Opção que a média móvel havia chegado a aproximadamente 5 mil litros por segundo no fechamento diário mais recente citado por ele. Naquele momento, a vazão registrada no dia era de 4.283 litros por segundo.
As chuvas registradas na quarta-feira (14) geraram expectativa de aumento do volume de água. Segundo Amorim, o quadro é reavaliado diariamente, conforme os dados coletados pelos sistemas de monitoramento.
O meteorologista ressalta, porém, que a recuperação depende da continuidade das precipitações. Como o período chuvoso ainda não se estabeleceu regularmente, o rio pode apresentar novas oscilações.
“Basta a chuva dar uma paradinha, ele começa a cair um pouco”, explicou.
Por isso, mesmo diante da melhora recente, ainda não há garantia de uma recuperação contínua da vazão. O CIMEHGO mantém o acompanhamento do manancial e reforça a importância da preservação dos recursos hídricos e do consumo responsável de água.
Situação atual é melhor que a de 2025
Na comparação com o mesmo período do ano passado, o cenário do Meia Ponte apresenta melhora. De acordo com André Amorim, a vazão registrada naquela época de 2025 girava em torno de 3 mil litros por segundo.
“Esse ano a gente conseguiu, assim, no geral, ele está melhor que o do ano passado”, afirmou.
Apesar da evolução, o representante do CIMEHGO destacou que a bacia continua exigindo atenção e cuidados permanentes. Para ele, a conservação dos recursos hídricos precisa envolver tanto o poder público quanto a população e os demais usuários da água.
“Cada ano que passa eles vão entendendo que a bacia é uma bacia crítica. Então ela precisa de um cuidado melhor. Não é só o Estado cuidar, é todos cuidarem, porque todo mundo usufrui”, declarou.
Amorim também reiterou que o monitoramento contínuo permite ajustar as medidas de acordo com a situação do rio e defendeu a adoção de hábitos que reduzam o desperdício.
Abastecimento de Goiânia continua sem alterações
Mesmo com a classificação de alerta do Meia Ponte, a Saneago informou que o fornecimento de água em Goiânia segue normalmente. Segundo a companhia, a vazão atual do manancial, somada à capacidade dos demais sistemas produtores, é suficiente para atender à população.
A capital é abastecida por três sistemas produtores que utilizam duas fontes principais: a captação direta no Rio Meia Ponte e a água armazenada no sistema Mauro Borges, abastecido pelo Ribeirão João Leite.
Atualmente, cerca de 64% de Goiânia recebe água do Ribeirão João Leite, enquanto os outros 36% são atendidos pelo Meia Ponte.
A barragem do João Leite está com 83% de sua capacidade ocupada. O reservatório pode armazenar até 129 milhões de metros cúbicos, equivalentes a 129 bilhões de litros de água.
A Saneago também informou que não há necessidade, no atual nível de criticidade, de diminuir a captação no Meia Ponte. Ainda assim, a companhia recomenda que a população mantenha o consumo consciente até que as chuvas se regularizem.
A empresa acrescentou que os sistemas de abastecimento dos 223 municípios atendidos por ela operam com qualidade e regularidade.
Monitoramento considera seis níveis de criticidade
A classificação da situação do Rio Meia Ponte é definida a partir da vazão registrada no ponto de captação da Saneago. Conforme os parâmetros estabelecidos pela Deliberação nº 021/2022 do Comitê da Bacia Hidrográfica do Meia Ponte, existem seis níveis:
- Nível de atenção: vazão igual ou inferior a 12 mil litros por segundo;
- Nível de alerta: vazão igual ou inferior a 9 mil litros por segundo;
- Nível crítico 1: vazão igual ou inferior a 5.500 litros por segundo;
- Nível crítico 2: vazão igual ou inferior a 4 mil litros por segundo;
- Nível crítico 3: vazão igual ou inferior a 3 mil litros por segundo;
- Nível crítico 4: vazão igual ou inferior a 2 mil litros por segundo.
Quanto menor o volume de água no rio, maior a criticidade da situação e a necessidade de medidas específicas para proteger o abastecimento e orientar os usuários.
Segundo a Semad, a portaria publicada em outubro retirou o manancial do nível crítico 1 e o colocou em alerta. Nessa classificação, estão previstas campanhas de conscientização sobre o uso racional da água, divulgação da situação hídrica da bacia e reuniões com usuários, prefeituras, associações de produtores rurais e outras entidades.
Também estão previstas ações de fiscalização e orientação sobre a utilização dos recursos hídricos. A secretaria informou que essas medidas já estão em andamento, respeitadas as restrições impostas pela legislação eleitoral até 4 de outubro.
O que diz a Saneago
A companhia afirma que a integração entre os sistemas produtores amplia a segurança do abastecimento de Goiânia, permitindo redistribuir água de acordo com a necessidade de cada região.
As três estações de tratamento de água (ETAs) da capital possuem as seguintes capacidades:
- ETA Meia Ponte: até 2.000 litros por segundo;
- ETA Mauro Borges: até 4.000 litros por segundo;
- ETA Jaime Câmara: até 2.000 litros por segundo.
Integração reforça a segurança hídrica
Uma das estruturas utilizadas para garantir a continuidade do abastecimento é a adutora de integração, capaz de transferir até 800 litros de água por segundo para reforçar o Sistema Meia Ponte.
Com essa conexão, a água armazenada no sistema João Leite pode ser direcionada para bairros normalmente atendidos pelo Meia Ponte caso a vazão do rio diminua.
Outro equipamento citado pela Saneago é a Conexão Cristina, inaugurada em 2025. A estrutura permite maior flexibilidade na distribuição entre os dois sistemas e pode operar com vazão de até 2.124 litros por segundo.
Segundo a companhia, essas interligações ampliaram a capacidade de resposta da rede de abastecimento diante de períodos de estiagem ou redução da disponibilidade hídrica em um dos mananciais.
Companhia destaca redução de perdas de água
A Saneago também ressaltou as medidas adotadas para diminuir o desperdício durante a distribuição. De acordo com a empresa, o índice de perdas de água na rede está em 21,5%, abaixo da meta de 25% prevista no Novo Marco Legal do Saneamento para 2033.
A companhia afirma ter atingido o patamar com antecedência em relação ao prazo legal. Além disso, cita o Estudo de Perdas de Água 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil, segundo o qual Goiânia aparece pelo quinto ano consecutivo como a capital brasileira com o menor índice de perdas na distribuição.
A empresa considera que a redução das perdas contribui para aumentar a quantidade de água disponível aos consumidores.
Uso consciente e responsabilidade pela bacia
Apesar das condições atuais de abastecimento, a Saneago recomenda evitar desperdícios enquanto as chuvas não se tornam regulares. Orientações para economizar água estão disponíveis no site oficial da companhia.
A empresa também ressalta que é responsável pelo abastecimento público nos municípios onde atua, mas não é a única usuária das bacias hidrográficas. A gestão dos recursos hídricos e o acompanhamento dos demais usuários são atribuições da Semad.
A secretaria, por sua vez, informou que a classificação e as medidas aplicadas ao Meia Ponte seguem a regulamentação definida pelo comitê responsável pela bacia. O acompanhamento da vazão continuará orientando eventuais ações, conforme a evolução das condições do rio e a regularidade das chuvas.







