Super El Niño pode provocar 13,3 mil mortes relacionadas ao calor no Brasil, aponta estudo

Projeção da Universidade de Chicago estima mais de 450 mil mortes no mundo associadas ao aumento das temperaturas durante o fenômeno

O Brasil pode registrar cerca de 13,3 mil mortes adicionais relacionadas ao calor durante o atual episódio de “Super El Niño”, segundo uma projeção elaborada pelo Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. O país aparece entre os cinco que devem concentrar o maior número de óbitos associados às temperaturas elevadas e às alterações climáticas provocadas pelo fenômeno.

A estimativa faz parte de um estudo publicado em setembro que analisa os efeitos do El Niño sobre a mortalidade em diferentes regiões do planeta. Para chegar às projeções, os pesquisadores levaram em conta fatores como as condições climáticas de cada área, a vulnerabilidade das populações e a capacidade de adaptação diante de períodos de calor extremo.

O levantamento aponta que os impactos mais intensos devem ocorrer principalmente em países do chamado Sul Global. Além do aumento das temperaturas, a análise considera efeitos relacionados a mudanças no regime de chuvas, que podem favorecer períodos de seca, incêndios florestais e inundações.

Mais de 450 mil mortes são projetadas

O estudo estima que 451 mil mortes estejam relacionadas ao calor intensificado pelo Super El Niño ao longo dos próximos meses. Entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027, aproximadamente 239 mil mortes adicionais são projetadas em todo o mundo.

A África aparece entre as regiões que podem sofrer os maiores impactos. No Sahel, faixa localizada ao sul do deserto do Saara e que atravessa diferentes países, a previsão é de 66,8 mil mortes. A Nigéria tem a maior estimativa individual, com 31,4 mil óbitos, seguida por Sudão, com 17,5 mil, Níger, com 10 mil, e Chade, com 8 mil.

Na Ásia, Filipinas, Vietnã, Tailândia e Camboja podem registrar, juntos, 19,4 mil mortes. A Indonésia aparece com uma projeção de 19,3 mil, enquanto a Índia tem estimativa de 15,8 mil óbitos.

Na América do Sul, o Brasil concentra a maior projeção, com 13,3 mil mortes adicionais. O país está entre os territórios que, segundo o levantamento, terão maior exposição aos impactos do calor no período analisado.

A estimativa global apresentada pelo estudo é cerca de 65 vezes maior do que as 6,8 mil pessoas que, segundo números citados pelos pesquisadores, morreram ou desapareceram nas recentes inundações repentinas registradas no Nepal.

Michael Greenstone, cofundador do Laboratório de Impacto Climático, afirmou que a pesquisa permite antecipar a dimensão dos efeitos de temperaturas extremas sobre a mortalidade. Segundo ele, esse tipo de projeção pode ajudar a identificar riscos antes que os impactos ocorram.

Alertas e adaptação podem reduzir impactos

Apesar das projeções, o estudo aponta que os efeitos do calor extremo podem ser reduzidos por meio de medidas de adaptação e prevenção. O Laboratório de Impacto Climático cita estratégias destinadas a proteger populações expostas a temperaturas elevadas.

Entre as medidas mencionadas estão sistemas de alerta antecipado para ondas de calor e a criação de centros de resfriamento. Também são citadas ações específicas para trabalhadores que permanecem por longos períodos expostos ao calor.

Os pesquisadores defendem ainda que dados sobre mortalidade sejam incorporados ao planejamento de resposta a episódios de El Niño. O objetivo é combinar essas informações com políticas voltadas à segurança alimentar e à redução dos riscos provocados por eventos climáticos extremos.

O trabalho também apresenta uma projeção de longo prazo sobre os efeitos das mudanças climáticas. Os autores utilizam estimativas de temperatura para um horizonte de aproximadamente 20 anos e avaliam os possíveis impactos em um cenário sem novos investimentos em adaptação.

Nesse contexto, os pesquisadores descrevem as condições atuais como uma espécie de “cartão-postal do nosso futuro”, em referência à possibilidade de que temperaturas semelhantes passem a ocorrer com maior frequência nas próximas décadas.

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